Quinta-feira, Outubro 29, 2009

Afternoon

when the lady smiled to the garbage man
the sun shined

Quinta-feira, Outubro 08, 2009

Segunda-feira

E então ela desperta
e se encontra nas mãos
de um menino-terra
de olhos azuis

Sábado, Julho 11, 2009

Tudo parecia já dito e as palavras estavam gastas.

Um vazio tomava o espaço da casa, e não havia remédio;
ele se alastrava, infiltrava-se em brechas, nas frestas de armários, nas bordas mal iluminadas, nos cantos mais secretos, na face dos espelhos, no mármore do parapeito...... inundava a casa como enchente imensa, maremoto, dia de temporal........ diluía as coisas mais concretas, tornando tudo impalpável, incolor, desfazendo papel em água morna, as cores se misturando como numa sopa fervente.......

E era tanto, que não mais cabia. E, não cabendo, ainda assim se afirmava. E doía.
Nada além do som daquele piano ao anoitecer da tarde fria, cinza, nada a dizer.

[echoes de pink floyd soando obsessivamente na sala]

E então alçar voo era como despir-se
um salto
um lapso
um rumo
um estalo

e sabendo-se nua havia que deixar o vento soprar
permanecente

nenhuma marca, nenhum engano
a pele lisa e solta era como renovada

alçar voo era novamente buscar verões,
as grandes portas como links secretos
nada que não tivesse antes conhecido

e então sentiria o gosto da areia
o gosto do sol
o gosto daquela fluência maior que o mundo
e de não se saber nada no imenso
mas sentindo tudo pulsante e pulsante como um poema de leminski
hai kais reluzentes
e voltar no tempo seria então como avançar ainda mais.....

um salto imenso no escuro e não seria a mesma pessoa. os olhos fechados se abrem quando sentem luz.... e galopante feito animal selvagem, as cenas pipocando em flashes, as cores misturadas em vozes soltas, galopante feito animal selvagem, desconhecido, entregando-se a alguma coisa visceral

Sexta-feira, Maio 29, 2009

Palavra secreta

um livro que se abre

uma janela

um imenso ruído entre as cobertas

fragmentos luminosos

viagens, trajetos

na bolsa, perdido, um objeto

cores perdidas no quarto

no tempo

o rente das unhas

o segredo encravado nas dobradiças

as rochas irregulares

os passos, pegadas

as marcas na areia

as poças

os rastros

nos olhos, a vista embaçada

o som de um sussurro e mais nada

Quinta-feira, Abril 02, 2009

Um dia, nada mais importou.
Nesse dia, o vento falou, a voz soprou e o pássaro da noite calou.


Terra dura, noite muda
todos os sentidos se abrem ao tempo.
Partículas de infinito se espalham no espaço.
Plantas crescem, dias amanhecem. A noite emudece. Madrugada vai alta, longe, comprida. Estica os dedos pra luz do céu que divide tudo. O mar não se torna mais navegável ao sol poente. As águas sim, as águas brilham pingos de suor. Reluzem como peixes sacudidos na rede. Tudo que é dia termina. Um sorriso invisível se apaga mais na brancura da sala. Cores fortes de pintura envelhecem. As coisas mais bonitas da vida se perdem. As coisas invariavelmente mudam e o tempo me devora. Tudo que é palavra evapora;

Sexta-feira, Março 20, 2009

Alguém sorriu de passagem
numa cidade estrangeira

A vida está nas frestas
O agora: imensa janela

É tempo de fechar feridas
E o tempo é UM

Sexta-feira, Março 13, 2009

Era quase noite. Enquanto relampejava, Clara deitada na cama sentia o cheiro que o vento trazia. Sentia nos póros a sensação fria pela janela aberta. Passava as mãos nas pernas e sentia seus pêlos. Eram lisos. Tudo era tão liso que cansava. As pernas macias, os sentimentos vagos, uma vaziez que por hora tomava tudo. Tanto mar pela janela, e a calmaria inquietava. Onde as ondas? Onde um caos que estranhamente parecia se buscar?

Era noite. A chuva diminuíra. Clara enfrenta as ruas molhadas. Ouve mantras que transportam para outra cidade. Buenos Aires. Podia ser São Paulo. A cidade da chuva. A cidade cinza dos prédios altos, cidade da sujeira, dos sons de carros. Clara senta-se em frente à vitrine de doces. E pede um sorvete de brigadeiro com casca de chocolate. O sorvete preenche tudo essa noite. O êxtase do mantra noturno. O mantra de Buenos Aires. Na cidade azul que recebe a chuva. E onde ainda faz calor.

O ar é abafado. As janelas abertas e o vento cessa. Adiante uma varanda cheia de vasos de flores. Cores no meio da noite. O mantra que preenche tudo. As unhas por cortar. Os pêlos por tirar. Marcas do corpo no lençol. Tudo desarrumado? Um caos bastante harmonioso dentro dos seus limites. Estar sendo, ter sido. Vittorio. Hilda. Hillé. Clara ensaiando um solo. Alonga as pernas o mais que pode. Flores de Vincent colorem a mesa.

Versos escritos no caos. O caos como a base de tudo. Do começo daquelas primeiras centelhas do universo. Um solo ensaiado em dança. Música repetida. Selos guardados num baú antigo. Que guarda coisas raras. Que não existem mais. Antigos vestidos de avó. Antigos objetos e serpentes bicolores. Esmaltes transparentes. Pipas em papel crepom. Leques rendados. Tudo que é artifício. O granulado do sorvete. A bermuda do surfista. A percussão nessa música que inspira uma roda de alegria e vestidos a girar em cores que se esbatem no gramado.

Alegria que está no todo. No passo. No respiro. Na formiga e no gigante. Na voz da cantora. No céu de infinito. No horizonte do mar. O mesmo mar. E mares nunca antes navegados. Viver não é preciso. Caminhos jamais percorridos. Jamais sonhados ou imaginados por qualquer poeta. De impossível previsão e desenho. O desenho de um mapa não abrange o lugar. O instante de se saber no agora. Clara analisando seu rosto no espelho. Percebendo as rugas, as marcas, as fendas que não podemos perceber na distância de um corpo jovem. A falsa coesão do que na verdade se faz fratura. A vida, o tempo: Puro enigma.

Poder ser pedra
poder ser chuva
um dia, poder ser mar

quando na janela
pingos de luz e água
luminosos se alastram

pergunto
se um dia
poder ser mar
poder ser um

diluir a fina torçura em canção
somar-me aos rastros que não vejo
penetrar as fendas do tempo

um dia a verdadeira luz
o corpo
o senso
a pele, os póros
um dia

SIM.